Giorgio Barone

Quem manda nos juros do mundo: história dos chairmen do Fed — e o que está acontecendo agora nos EUA

Em 16 de maio de 2026, Kevin Warsh tomou posse como o 17º chairman do Federal Reserve, encerrando a era Jerome Powell. Entenda por que esse cargo move mercados em todo o planeta, quem foram os grandes nomes da história e o que a troca de comando significa para o Brasil.

Quando o chairman do Federal Reserve fala, o mundo para para ouvir. Uma única frase sobre juros pode mover trilhões de dólares em mercados de ações, câmbio e renda fixa em questão de segundos — do Brasil ao Japão, da Europa à África do Sul. Em 2026, esse cargo passou para novas mãos pela primeira vez em oito anos, em meio a uma das transições mais turbulentas da história do banco central mais poderoso do planeta.

O que é o Federal Reserve — e por que ele importa para o mundo

O Federal Reserve — popularmente conhecido como “o Fed” — é o banco central dos Estados Unidos. Foi criado em 1913 pelo Congresso americano para estabilizar o sistema financeiro do país, que sofria com pânicos bancários recorrentes. Hoje, é a instituição financeira mais influente do planeta.

Os dois mandatos oficiais do Fed

Por lei, o Federal Reserve tem dois objetivos permanentes: (1) manter a estabilidade dos preços — controlar a inflação, com meta de 2% ao ano — e (2) promover o máximo emprego possível na economia americana. Quando os dois objetivos entram em conflito — como ocorreu entre 2022 e 2024, quando combater a inflação exigia juros altos que freavam o emprego — o chairman precisa navegar uma das decisões mais difíceis da macroeconomia global. (Fonte: Federal Reserve Act / U.S. News Money (2025)

A ferramenta principal do Fed é a taxa dos fed funds — os juros básicos americanos. Quando o Fed sobe os juros, o crédito fica mais caro nos EUA e no mundo, o dólar tende a se fortalecer e capital sai de países emergentes como o Brasil. Quando o Fed corta juros, o movimento é inverso. É por isso que cada reunião do FOMC é acompanhada ao vivo por traders em todos os fusos horários.

Como o Fed impacta o Brasil diretamente

Quando o Fed sobe juros, o diferencial de retorno entre ativos americanos e brasileiros diminui. Isso reduz o apelo do carry trade no Brasil, pressiona o real e pode forçar o Banco Central brasileiro a manter a Selic mais alta por mais tempo. Em sentido contrário, juros americanos baixos ampliam o fluxo de capital para emergentes — o que explica parte da valorização do real registrada em 2026. (Fonte: Brookings Institution / Chase Wealth Management (mai/2026))

2. O que faz o chairman do Federal Reserve

O chairman é indicado pelo presidente dos EUA e confirmado pelo Senado para um mandato de quatro anos, renovável. Suas funções vão muito além de apertar ou afrouxar os juros:

Presidir o FOMC

O Federal Open Market Committee se reúne oito vezes por ano para decidir a taxa dos fed funds. O chairman preside as reuniões, molda o debate e, ao final, anuncia a decisão em coletiva de imprensa — transmitida ao vivo para todos os mercados do mundo.

Comunicar a política monetária

A comunicação é talvez a ferramenta mais poderosa do cargo. O que o chairman diz — ou deixa de dizer — sobre inflação, emprego e perspectivas econômicas pode mover mercados tanto quanto uma mudança de juros. O conceito de forward guidance (orientação futura) nasceu dessa realidade.

Supervisionar o sistema bancário americano

O Fed é o principal regulador dos grandes bancos americanos. O chairman supervisiona stress tests, limites de capital e responde ao Congresso sobre riscos sistêmicos — papel que ganhou importância decisiva após a crise de 2008.

Manter a independência do banco central

Tecnicamente, o chairman não obedece ao presidente dos EUA nem ao Congresso. A independência do Fed é um pilar do sistema financeiro global — e um dos temas mais debatidos durante a gestão Powell, que resistiu a pressões públicas de Trump para cortar juros mais rapidamente.

Os chairmen que moldaram a economia moderna

Desde 1979, cinco nomes definiram a política monetária americana e, por consequência, a economia global. Cada um enfrentou uma crise diferente. Cada um deixou um legado distinto.

12º

Paul Volcker

Agosto 1979 — Agosto 1987

Indicado por: Jimmy Carter / renovado por Ronald Reagan

Conhecido como “Tall Paul” pelo 1,98m de altura, Volcker é o chairman que matou a inflação americana à força bruta. Em 1981, elevou os juros a 20% ao ano — o maior nível da história moderna — provocando uma recessão severa, mas quebrando o ciclo inflacionário que corroía a economia americana há uma década. Seu método ficou conhecido como “choque Volcker” e inspirou gerações de banqueiros centrais, incluindo o próprio Powell. Sob sua gestão, o S&P 500 acumulou alta de 219%.

13º

Alan Greenspan

Agosto 1987 — Janeiro 2006

Indicado por: Ronald Reagan / renovado por Bush, Clinton e G.W. Bush

Com quase 19 anos no cargo, Greenspan é o segundo chairman mais longo da história. Conduziu o Fed pela queda do mercado em 1987, pelo boom tecnológico dos anos 1990 e pelo estouro da bolha dot-com em 2001. Adorado como “maestro” nos anos de prosperidade, foi duramente criticado depois por manter juros baixos demais — política que, segundo críticos, plantou as sementes da crise imobiliária de 2008. Formado em clarinete na Juilliard antes de se tornar economista.

14º

Ben Bernanke

Fevereiro 2006 — Janeiro 2014

Indicado por: George W. Bush / renovado por Barack Obama

O acadêmico que estudou a Grande Depressão a vida inteira teve que enfrentá-la em versão moderna. Diante do colapso do Lehman Brothers em 2008, lançou o QE (quantitative easing) — comprando títulos em escala nunca vista para evitar o congelamento do crédito global. Apelidado de “Helicopter Ben” por um discurso de 2002 sobre imprimir dinheiro, provavelmente evitou uma nova Grande Depressão. Ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2022, já aposentado, pelo trabalho sobre crises financeiras.

15ª

Janet Yellen

Fevereiro 2014 — Fevereiro 2018

Indicada por: Barack Obama

Primeira mulher a presidir o Fed em seus mais de 100 anos de história. Yellen assumiu com a tarefa de normalizar a política monetária após anos de estímulo extraordinário. Conduziu o início do ciclo de alta de juros com extremo cuidado, priorizando o emprego. Sob sua gestão, investidores obtiveram retorno anual médio de 13,5% no S&P 500. Trump não a renovou — Yellen depois se tornaria Secretária do Tesouro dos EUA no governo Biden.

16º

Jerome Powell

Fevereiro 2018 — Maio 2026

Indicado por: Donald Trump / renovado por Joe Biden

Advogado e ex-banqueiro de investimentos — não economista — Powell foi o primeiro chairman sem PhD em economia em décadas. Seu mandato foi marcado pela pandemia de 2020 (quando cortou juros a zero em emergência), pelo maior ciclo de alta desde Volcker (2022-2023) e por uma relação turbulenta com Trump, que o pressionou publicamente e chegou a investigar seus gastos com a reforma da sede do Fed. Powell resistiu, manteve a independência do banco — e deixou o cargo com a inflação ainda acima da meta de 2% pelo quinto ano consecutivo.

Kevin Warsh: o novo chairman — quem é e o que esperar

Perfil de Kevin Warsh

Nascido em 13 de abril de 1970 em Albany, Nova York. Formado em políticas públicas pela Universidade Stanford e em Direito pela Harvard Law School. Iniciou a carreira em fusões e aquisições no Morgan Stanley, depois foi assessor econômico de George W. Bush na Casa Branca. Em 2006, tornou-se governador do Fed — um dos mais jovens da história — cargo que ocupou até 2011, atravessando a crise de 2008 ao lado de Bernanke. Depois, foi fellow na Hoover Institution de Stanford e lecturer na Graduate School of Business. (Fonte: Britannica Money / Hoover Institution / Chase Wealth Management (mai/2026))

O que Warsh pensa sobre política monetária

Warsh é considerado um hawk (linha dura contra inflação) histórico. Em 2022, foi um dos primeiros a alertar que “excessos extraordinários de política monetária e fiscal fizeram o dragão da inflação ressurgir após 40 anos de dormência”. Criticou o Fed por ser tarde demais na alta de juros e por manter o balanço “inflado” demais por muito tempo. Paradoxalmente, Trump o nomeou esperando cortes de juros — mas o próprio mercado projeta que Warsh será mais cauteloso do que o presidente gostaria, dado o contexto de inflação ainda acima de 2%. (Fonte: CNBC — “Who is Kevin Warsh” (jan/2026) / The Conversation (mai/2026))

⚠ O paradoxo Warsh: Trump quer cortes, Warsh pode não entregar

Embora Trump tenha nomeado Warsh esperando uma postura mais dovish (favorável a cortes de juros), vários membros votantes do FOMC já expressaram resistência a novos cortes enquanto a inflação não retornar de forma convincente à meta de 2%. A inflação atingiu um pico de três anos em abril de 2026 — impulsionada em parte pelos combustíveis afetados pelo conflito no Oriente Médio. Analistas do Chase esperam “continuidade de curto prazo” na política monetária, com Warsh sendo dovish apenas quando os dados permitirem. (Fonte: CNBC / Chase Wealth Management (mai/2026))

 A guerra entre Trump e Powell — linha do tempo completa

A relação entre Donald Trump e Jerome Powell foi uma das mais tensas da história entre um presidente americano e o chairman do Fed. Entender essa disputa é fundamental para compreender o momento atual.

2018–2019
1º mandato Trump

Trump nomeou Powell em 2018, mas logo passou a criticá-lo publicamente por manter os juros altos. Chegou a chamá-lo de “inimigo” e cogitar demiti-lo — algo que jamais havia sido tentado na história do Fed.

2020
Pandemia

Powell cortou os juros a zero em emergência e lançou programas de compra de ativos sem precedentes. A ação coordenada com o Tesouro dos EUA estabilizou os mercados em semanas.

2022–2023
Choque de inflação

Com a inflação americana atingindo 9% — o maior nível desde 1981 — Powell iniciou o ciclo de alta de juros mais agressivo desde Volcker, levando os fed funds de 0% a 5,5% em pouco mais de um ano.

2025
2º mandato Trump

Trump voltou a pressionar Powell. O Departamento de Justiça abriu investigação criminal contra Powell sobre supostos desvios na reforma da sede do Fed — avaliada em mais de US$ 3 bilhões. Powell afirmou que a investigação era pressão política disfarçada para forçar cortes de juros.

Abril 2026
Resolução

O DOJ encerrou a investigação contra Powell, removendo o principal obstáculo à confirmação de Warsh no Senado. O senador Thom Tillis havia bloqueado a votação de Warsh enquanto a investigação estivesse aberta.

13–16 mai 2026
Transição

Senado confirma Warsh em 54 a 45. Mandato de Powell expira em 15 de maio. Warsh toma posse em 16 de maio em cerimônia na Casa Branca.

Por que a independência do Fed é inegociável para os mercados

A UPI cita o professor Peter Shane, da NYU Law School: o presidente tem autoridade sobre a nomeação do chairman — mas não sobre as decisões de política monetária. Um Fed que obedece ao presidente perde credibilidade, o que historicamente leva a inflação mais alta, juros de longo prazo mais elevados e maior volatilidade cambial global. (Fonte: UPI / NYU Law School / The Conversation (mai/2026))

O cenário econômico que Warsh herda em maio de 2026

Inflação acima da meta pelo 5º ano consecutivoPowell deixou o cargo com a inflação americana ainda acima de 2% por mais de cinco anos seguidos. Em abril de 2026, a inflação atingiu um pico de três anos, pressionada pelos combustíveis afetados pelo conflito no Oriente Médio. (Fonte: Chase Wealth Management / CNBC)

Fed funds entre 3,5% e 3,75%O Fed já realizou três cortes de juros em 2025. O mercado projeta mais dois cortes em 2026 e nenhum em 2027 — dependendo da trajetória da inflação. (Fonte: CNBC / Trading Economics)

Guerra comercial e tarifas de TrumpAs tarifas impostas sobre importações chinesas e europeias em 2025 criaram pressões inflacionárias adicionais, complicando o trabalho do Fed. Warsh precisará calibrar a política monetária num ambiente de choque de oferta. (Fonte: Brookings Institution)

Petróleo acima de US$ 110 — Estreito de OrmuzO conflito no Oriente Médio mantém o Brent em patamares elevados. A AIE projeta subabastecimento global de petróleo até pelo menos outubro de 2026 — um fator exógeno que o Fed não controla, mas precisa acomodar em suas projeções. (Fonte: AIE / Reuters)

Perguntas frequentes sobre o Fed e seu chairman

O presidente dos EUA pode demitir o chairman do Fed?

Tecnicamente, a lei permite remoção “por justa causa”. Mas nenhum presidente jamais conseguiu demitir um chairman. Trump chegou a cogitar isso com Powell, mas recuou. A Suprema Corte interveio em 2025 para impedir a demissão de uma governadora do Fed, sinalizando que o Judiciário protege a independência da instituição. (Fonte: UPI / NPR)

Por que o Fed importa para quem investe no Brasil?

Porque os juros americanos determinam o preço global do dinheiro. Quando o Fed sobe juros, ativos americanos ficam mais atraentes, capital sai de emergentes, o dólar se fortalece e o real tende a se depreciar. O Banco Central brasileiro precisa considerar os movimentos do Fed ao definir a Selic. (Fonte: Brookings / Chase)

O que é o FOMC e como ele funciona?

O Federal Open Market Committee é o comitê que decide os juros americanos. Reúne-se oito vezes por ano. É composto pelo conselho de governadores do Fed mais os presidentes dos 12 bancos regionais — mas só cinco deles votam por vez (em sistema rotativo), além dos sete governadores. O chairman preside e tem papel central na construção do consenso. (Fonte: Federal Reserve)

Warsh vai cortar juros rapidamente como Trump quer?

Improvável no curto prazo. A inflação segue acima de 2%, o mercado de trabalho está estável e o conflito no Oriente Médio pressiona o petróleo. Membros do FOMC já sinalizaram resistência a novos cortes sem evidências claras de desinflação. O consenso de mercado aponta dois cortes em 2026 — mas nenhum nos próximos meses. (Fonte: CNBC / Chase Wealth Management)

Qual é a diferença entre o Fed e o Banco Central brasileiro?

Ambos são bancos centrais com mandato de controle da inflação. Mas o Fed tem um mandato duplo explícito — inflação E emprego — enquanto o BC brasileiro foca primariamente no regime de metas de inflação. Além disso, como o dólar é a moeda de reserva global, as decisões do Fed têm alcance planetário que o BC brasileiro não tem. (Fonte: Federal Reserve / Banco Central do Brasil)

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