Onde os grandes gestores de Wall Street estavam no fim de junho

Investimentos Por 8 min de leitura
Onde os grandes gestores de Wall Street estavam no fim de junho
Resposta diretaOs formulários 13F entregues à SEC mostram como cinco gestores estavam posicionados em 30 de junho de 2026. Li Lu tinha 8 posições; a Bridgewater, 997. Entre tanta diferença, três pontos em comum: Alphabet aparece nas cinco carteiras, a maior posição de cada um pesa pelo menos 16% do total e nenhum deles distribui o dinheiro em partes iguais. Nenhuma dessas carteiras é recomendação: elas mostram método.

Todo meio de agosto acontece a mesma coisa. Quem administra mais de 100 milhões de dólares em ações negociadas nos Estados Unidos precisa entregar à SEC, o regulador americano, um formulário chamado 13F. Ali está escrito, posição por posição, onde aquele dinheiro estava no último dia do trimestre.

Não é vazamento nem boato. É documento público, com nome da empresa, quantidade e valor.

Abaixo estão as cinco carteiras inteiras — quais ações, e quanto cada uma pesa. Antes disso, três avisos que mudam completamente a forma de ler esses números.

O que o formulário 13F mostra — e o que ele esconde?

O 13F mostra as posições compradas em ações e fundos negociados em bolsa nos Estados Unidos, com o valor de cada uma no último dia do trimestre. É uma fotografia, não um filme.

É como o extrato do cartão de um mês que chega no mês seguinte: diz muito sobre a pessoa, mas não diz o que ela comprou ontem.

Como estavam as cinco carteiras em 30 de junho?

GestoraQuem comandaCarteiraPosiçõesCinco maiores
Himalaya CapitalLi LuUS$ 3,7 bi895%
Berkshire HathawayWarren Buffett e Greg AbelUS$ 299,3 bi2969%
AppaloosaDavid TepperUS$ 7,5 bi2558%
Duquesne Family OfficeStanley DruckenmillerUS$ 4,4 bi8638%
Bridgewater AssociatesRay DalioUS$ 24,4 bi99733%

Repare na distância entre a primeira e a última linha: 8 posições contra 997. As duas gestoras administram bilhões, as duas têm décadas de estrada — e chegaram a respostas opostas para a mesma pergunta.

Não existe um número certo de ativos numa carteira. Existe o número que você consegue acompanhar e defender.

Himalaya Capital: oito posições no mundo inteiro

Empresa ou fundoCódigo% da carteira
Alphabet (classe A)GOOGL24,5%
Alphabet (classe C)GOOG23,4%
PDD HoldingsPDD22,2%
Berkshire HathawayBRK.B15,0%
East West BancorpEWBC9,7%
CrocsCROX2,9%
Tencent MusicTME1,5%
AppleAAPL0,9%

Alphabet aparece duas vezes porque a empresa tem duas classes de ação. Somadas, são 47,9% da carteira — quase metade do dinheiro numa empresa só.

Depois vem a PDD, dona da Pinduoduo e da Temu, com 22,2%. E 15% em Berkshire Hathaway, o que na prática significa terceirizar um pedaço da decisão para o time do Buffett.

Sobram três posições pequenas — Crocs, Tencent Music e Apple juntas não chegam a 6%.

É a carteira de quem estuda poucas empresas a fundo e não sente necessidade de ter opinião sobre o resto.

Berkshire Hathaway: a maior carteira, com 29 nomes

Empresa ou fundoCódigo% da carteira
AppleAAPL22,0%
American ExpressAXP17,1%
Coca-ColaKO10,9%
Alphabet (classe A)GOOGL9,4%
Bank of AmericaBAC9,2%
ChevronCVX4,7%
OccidentalOXY4,3%
Chubb Limited—3,9%
outras 21 posições—18,5%

São US$ 299,3 bilhões declarados e apenas 29 empresas. Apple sozinha vale 22%; as cinco maiores, 69% do total.

Chevron e Occidental somam 9% em petróleo. American Express, Bank of America e Chubb colocam quase 30% em serviços financeiros e seguros — que é o setor que a própria Berkshire opera há décadas.

Quem administra centenas de bilhões poderia comprar meio mercado. A régua de entrada é que impede: se a empresa não passa em todos os filtros, o dinheiro espera em caixa.

Appaloosa: uma tese só, contada em dez posições

Empresa ou fundoCódigo% da carteira
AmazonAMZN16,0%
MicronMU15,1%
TSMCTSM10,5%
Alphabet (classe C)GOOG8,7%
UberUBER7,4%
iShares Coreia do SulEWY6,6%
MetaMETA5,1%
VistraVST4,7%
outras 17 posições—25,9%

Leia a lista de cima para baixo e a tese se monta sozinha: a nuvem que processa (Amazon, Alphabet), a memória e os chips que rodam (Micron, TSMC, Nvidia) e a energia que alimenta tudo isso (Vistra, NRG).

No meio da lista está um ETF da Coreia do Sul, onde estão as duas outras gigantes de memória do mundo. É a mesma aposta, comprada por outro caminho.

Quando a tese acerta, uma carteira assim anda junto. Quando erra, também — e isso é risco de concentração, não azar.

Duquesne: 86 posições e uma convicção no meio

Empresa ou fundoCódigo% da carteira
NateraNTRA19,9%
TSMCTSM6,5%
STMicroelectronicsSTM5,3%
InsmedINSM3,5%
YPFYPF3,3%
AmazonAMZN3,0%
Bbb Foods—2,8%
Alphabet (classe A)GOOGL2,8%
outras 78 posições—53,1%

A Natera, empresa de exames genéticos, sozinha vale 19,9% da carteira — três vezes a segunda colocada. As outras 85 posições dividem o que sobra.

Chama atenção quem aparece fora dos Estados Unidos: YPF, a petroleira argentina, e a BBB Foods, rede de mercados mexicana. São apostas em países específicos dentro de uma carteira americana.

Bridgewater: quase mil posições — e ainda assim concentrada

Empresa ou fundoCódigo% da carteira
SPDR S&P 500SPY16,3%
iShares Core S&P 500IVV9,2%
NvidiaNVDA3,2%
BroadcomAVGO2,0%
AmazonAMZN2,0%
Alphabet (classe A)GOOGL1,9%
Lam ResearchLRCX1,7%
Vanguard S&P 500VOO1,3%
outras 989 posições—62,4%

SPY, IVV e VOO são três fundos que seguem o mesmo índice americano. Juntos, 26,8% da carteira.

Ou seja: o número de linhas na planilha diz pouco. O que importa é quanto do seu dinheiro depende do mesmo evento. Vinte ações de bancos não são vinte riscos diferentes; são o mesmo risco vinte vezes.

Vale para a sua carteira também: se amanhã o setor que você mais gosta cair 20%, quanto do seu patrimônio vai junto? Essa é a sua concentração real.

O que as cinco carteiras têm em comum?

Cinco gestores que discordam de quase tudo. Ainda assim, três coisas aparecem em todas as carteiras.

1. Uma única empresa está nas cinco. Alphabet, dona do Google e do YouTube, é o único nome que aparece nas cinco carteiras — em pesos que vão de quase metade a dois por cento.

QuemPeso de Alphabet na carteira
Himalaya Capital (Li Lu)47,9%
Berkshire Hathaway12,6%
Appaloosa8,7%
Duquesne2,8%
Bridgewater2,0%

Fora ela, só oito nomes aparecem em três ou mais carteiras — e quase todos vêm do mesmo lugar: a cadeia dos chips. TSMC, Lam Research e AMD estão em três carteiras cada. Amazon também.

2. A maior posição de cada um pesa pelo menos 16%. Essa é a semelhança que menos se espera, porque contraria a imagem que se tem de cada estilo.

QuemMaior posiçãoPesoTrês maiores juntas
Himalaya CapitalAlphabet (classe A)24,5%70%
Berkshire HathawayApple22,0%50%
DuquesneNatera19,9%32%
BridgewaterSPDR S&P 50016,3%29%
AppaloosaAmazon16,0%42%

Olhe a última linha da tabela de novo. A Bridgewater tem 997 posições e mesmo assim coloca 16,3% num único fundo. Ninguém ali distribui o dinheiro em partes iguais.

3. Ninguém compra o mercado inteiro. Mesmo o mais espalhado dos cinco escolheu concentrar um quarto do dinheiro no índice americano. Os outros quatro escolheram empresas, uma a uma, e aceitaram ficar de fora de setores inteiros.

O que separa essas carteiras não é quantas posições cada uma tem. É quanto peso cada um dá para aquilo em que acredita mais.

Se existe uma conclusão prática aqui, é essa: carteira boa não é a que tem muitos nomes nem a que tem poucos. É a que tem peso onde existe convicção — e nada nos lugares onde existe só palpite.

Dá para simplesmente copiar essas carteiras?

Não — e o motivo não é desconfiança, é matemática.

O gestor entrou naquele preço, com aquele tamanho de capital, num prazo que ele define, e pode sair sem avisar ninguém. Você entraria 45 dias depois, no preço de hoje, sem saber o peso daquilo no patrimônio total dele e sem saber se ele já vendeu.

Some o que o formulário não mostra: caixa, renda fixa, moedas, posições vendidas. A carteira que você vê pode ser uma fração do que existe de verdade.

O que dá para copiar é o critério. Quantas decisões você consegue acompanhar? Qual queda você aguenta sem mudar de ideia? Quanto do seu dinheiro depende de uma única história dar certo?

O que levar disso para a sua carteira esta semana

Um exercício de quinze minutos, com papel e caneta:

  1. Escreva quanto por cento do seu dinheiro está nas três maiores posições. Esse número é a sua concentração.
  2. Ao lado de cada uma, escreva em uma frase por que ela está aí. Se você não consegue, a posição é grande demais.
  3. Marque quais dependem do mesmo cenário — mesmo setor, mesma moeda, mesmo país.

Quem faz isso costuma descobrir que tem menos diversificação do que imaginava — e mais posições do que consegue defender.

Os cinco gestores desta lista discordam em quase tudo. Concordam em uma coisa: cada posição está ali por um motivo que eles sabem dizer em voz alta.

Fonte: formulários 13F-HR referentes a 30 de junho de 2026, protocolados na SEC em 14 de agosto de 2026 e consultados no sistema EDGAR. Percentuais calculados sobre o valor total declarado em cada formulário. Os nomes citados são registro do que foi declarado, não indicação de compra ou venda.

Conteúdo de caráter exclusivamente educacional, sem qualquer recomendação de investimento.

Perguntas frequentes

O que é o formulário 13F?

É a declaração trimestral que gestoras com mais de US$ 100 milhões em ações americanas precisam entregar à SEC, o regulador dos Estados Unidos. Ela lista as posições em ações e fundos negociados em bolsa no último dia do trimestre, com quantidade e valor, e vira documento público.

O 13F mostra a carteira completa do gestor?

Não. Ele mostra apenas posições compradas em ativos americanos. Renda fixa, moedas, caixa, ações negociadas fora dos Estados Unidos e posições vendidas não aparecem. Em fundos macro, o que fica de fora costuma ser maior do que o que aparece.

Os dados são atuais?

São do último dia do trimestre e podem ser publicados até 45 dias depois. Os números deste artigo retratam 30 de junho de 2026 e foram protocolados em 14 de agosto de 2026.

Copiar a carteira de um grande gestor funciona?

A informação chega com semanas de atraso, sem o preço de entrada, sem o tamanho da posição dentro do patrimônio total e sem o motivo da decisão. O uso educativo do 13F é entender critérios de concentração, risco e horizonte — não replicar posições.

O que as carteiras dos grandes gestores têm em comum?

Nos formulários de 30 de junho de 2026, Alphabet é a única empresa presente nas cinco carteiras analisadas, com pesos entre 47,9% e 2%. Além dela, oito nomes aparecem em três ou mais carteiras, a maioria ligada a semicondutores. E, em todas elas, a maior posição sozinha representa pelo menos 16% do total declarado.

Onde consultar os documentos originais?

No sistema EDGAR, da SEC, buscando pelo nome da gestora e pelo formulário 13F-HR. O acesso é gratuito.

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